domingo, 10 de maio de 2009

Algumas coisas não saem da forma como nós planejamos, mas talvez seja para que, no fim, o resultado seja melhor. Quero acreditar nisso. Ou deixar de planejar tudo.

"Uma coisa eu sei sobre os começos. Os fins estão sempre lá. Uma coisa eu sei sobre os fins. Não
há nada nos começos que os impeça a chegada. E as linhas vão trocando cores inevitáveis. "
'voulais tout d'être de retour comme avant'

domingo, 3 de maio de 2009

O imperador e eu


Recentemente acompanhamos o caso do jogador brasileiro Adriano, que responde pela alcunha de “Imperador”, que decidiu parar indeterminadamente sua carreira como futebolista. Adriano declarou, na mais calma das calmas, que estaria parando por se sentir infeliz na Itália, onde joga desde os 18 anos (excetuando-se o período em que retornou ao Brasil e jogou no São Paulo). Declarou ainda que isso foi pensado e pediu desculpas, eximindo-se de qualquer atrito com o clube italiano.
O ato de Adriano foi incomum e totalmente alheio à aparente lógica que qualquer ser humano seguiria. Com um salário milionário, poder, prestígio, fama, mulheres, carros, casas, mídia, e tudo mais que todo esse contexto pode proporcionar, o Imperador parou sua carreira pelo simples fato de não se sentir feliz com tudo isso. Confessou que esse ritmo impõe uma pressão muito grande, que essa vida exige demais do homem, e que ele se sente realmente feliz de camiseta e chinelos vivendo em sua comunidade no Rio de Janeiro.
Sim, pode parecer uma aberração, todos os comentários que eu ouvi a respeito disso foram “nossa, se ele não quer, eu quero”, “nossa, como ele é burro”, “nossa, eu quero ser infeliz ganhando o que ele ganha”. Mas o ato de Adriano me levou a uma reflexão profunda acerca de todo esse ciclo chamado de “felicidade”. Mais que isso, percebi que a minha vida e a do Imperador, embora em escalas totalmente díspares, tomaram, de certa forma, o mesmo rumo e o mesmo traçado (permita-me, caro leitor, compartilhá-las contigo).
Adriano sonhava em ser jogador de futebol desde cedo, segundo ele “eu me espelhava em grandes jogadores”. Lutou, batalhou, enfrentou todas as dificuldades e simplesmente explodiu sua carreira. Ainda com tenra idade já era um cara famoso, relativamente rico e conhecido. Eu, conforme uma providencial instrução, desde cedo (14, 15 anos) sonhava em ser servidor público. Me deliciava com os exemplos de pessoas que tinham uma vida “perfeita”, uma condição financeira e social totalmente estável. Perdi a conta de quantas vezes acordei no meio da madrugada pra ler institutos como a Lei 8112/1990, Constituição Federal. Sonhava (às vezes até acordado) e projetava mentalmente algumas cenas, como comprar roupas com meu dinheiro, ser prestigiado por ser uma pessoa inteligente e ter um bom emprego. Enfim, eu via o lado bom da coisa, e isso me motivava a seguir sempre em frente.
Adriano tomou uma decisão difícil com uma idade pequena – foi morar em uma terra estranha, com pessoas estranhas, com uma cultura estranha. Isso é um choque muito mais abrupto que pode parecer. Simplesmente em algumas horas você está muito longe do seu país, das pessoas que você ama, dos seus amigos, da sua casa, e o que você vê é um mar de pessoas que você nunca viu gritando o seu nome, pedindo fotos, autógrafos. Mais que isso, você se torna um ídolo aclamado e a rapidez com que isso ocorre é algo verdadeiramente impressionante. Eu, em minha reles trajetória vitalícia, também tomei uma decisão incomum e por muitos considerada equivocada: terminei o ensino médio e parei toda a minha vida somente para me dedicar a concursos públicos. Não foi fácil, pois a maioria das pessoas me orientava a largar isso e fazer uma faculdade (o caminho que normalmente é seguido pelos jovens recém-concluintes do segundo grau). Mas as “luzes” de me tornar um servidor público me faziam acelerar progressivamente meus estudos e meu sonho era cada vez mais vívido em meu coração. O fato da proximidade do dinheiro, do prestígio e da “felicidade” me faziam dedicar tempo, suor, paciência e tudo mais que eu pudesse aos estudos concurseiros. E assim eu seguia.
Adriano se tornou um ídolo e realizou o seu sonho pessoal: agora era um jogador conhecido, idolatrado, adorado e competente. Lembro-me da final de um torneio internacional (salvo engano, a Copa América em 2004), em que o clássico “Brasil X Argentina” era o centro das atenções, e los hermanos estavam ganhando o jogo, até que o Imperador fez dois gols, levou a decisão para os pênaltis e a Seleção Canarinho faturou o título. Adriano havia sim se tornado um ídolo brasileiro, e isso com certeza foi mais um marco em sua carreira, agora era sim um astro internacional, mas principalmente nacional. Eu também realizei meu sonho: consegui a tão sonhada aprovação em um concurso público. Concluí todas as fases e assumi o cargo (sim, fui para um lugar muito bom e com um salário relativamente perfeito para uma pessoa nova e sem tantas responsabilidades). Mais que isso, as cenas que antes eram mentalmente projetadas agora estavam ali, reais, e na minha frente. Pude realizar o sonho de comprar roupas, pude realizar o sonho de comprar lanches, pude realizar o sonho de comprar um violão elétrico, pude realizar o sonho de sair com uma garota pra um lugar caro e poder pagar a conta. Sou prestigiado, “aclamado”, as pessoas agora se espelham em mim. Enfim, eu havia conquistado a (até então na mina concepção) felicidade.
Adriano, entretanto, decepcionou-se com algumas entrelinhas da sua felicidade. Luzes demais, flashes demais, gritos demais, fama demais, talvez até dinheiro demais. O ritmo louco e constante de treinos, jogos, viagens, fusos horários, além da distância, de toda uma política externa de concordância com regras, de direcionamento forçado de vida, fizeram com que Adriano perdesse o gosto e o brilho pela felicidade outrora idealizada. A pressão por bons resultados e a condição senóide de “ídolo X vilão” desencadearam uma perceptível repulsão no Imperador. Até eu, que nunca o vi pessoalmente e que tampouco acompanho fielmente o mundo futebolístico, pude perceber que aquilo ali já era demais para o homem Adriano. O jogador Adriano ainda era o mesmo, forte, vigoroso. O humano Adriano era, contudo, infeliz e totalmente desacreditado com aquela vida. O desembocar mais salutar e o alcance inesperado (ou não) do estopim? A interrupção da carreira meteórica. Eu, quando cheguei ao serviço público, estava com aquele espírito de fazer a diferença, de valorizar meu trabalho e tentar, até onde a minha alçada permitir, fazer alguma coisa de útil para a res publica. Para meu total desencanto com tudo aquilo que eu sonhei durante aproximadamente três anos, o Estado não é o céu. O servidor não é valorizado, as chefias são dispersas e indolentes, as autoridades são (ou se fazem de) cegas. Salários congelados (não falo isso por mim, mas pelos milhares que estão há muito mais tempo que eu), condições precárias, falta de suporte básico, desorganização antológica, falta de compromisso, falta de espírito de equipe... Além de tantos outros problemas que eu vi nesses apenas 6 meses de serviço público. Esse choque me desencantou, o problema é antigo e vem se perpetuando há muito. Além disso, me desencantei parcialmente também com a faculdade de Direito: não é a carreira que eu seguiria primeiramente. E a coisa mais assustadora que eu percebi nesse pouco tempo de “realizações” é que eu me vi só quase todo o tempo. Sim, eu tinha dinheiro, prestígio, as pessoas me respeitavam e me elevavam. Sem falsas modéstias ou ufanismo, as meninas me idolatravam em meus círculos sociais – “o garoto dos sonhos: bonito e bem de vida”. As pessoas passaram a me respeitar (numa lógica maquiavélica e marxista) pelo que eu tinha, e não pelo que eu era, me elogiavam por eu ser servidor público (e não por eu ser o Daniel). Mas lá no fundo eu me sentia sozinho, sem nada e sem ninguém realmente que gostasse de MIM – com ou sem emprego e status. Até o dia em que eu conheci a pessoa que veio a mudar tudo isso, e me fez sentir algo impressionante: ela gosta de mim de verdade, não só do meu cartão de crédito. E o que ela tem a ver com isso tudo? Ela me fez tomar uma decisão muito difícil e arriscada, mas que me fez ver que é a melhor decisão pra mim e para a minha felicidade.
O Imperador Adriano agora é simplesmente Adriano e está feliz com isso. Eu o entendo muito bem quando ele, diante do mundo, renuncia o dinheiro e a fama. Adriano nos provou, com a mais sábia das atitudes, que a máxima “dinheiro não traz felicidade” é verdadeira. A decisão que ela me fez tomar mais uma vez une a minha vida com a do (ex) Imperador: prefiro buscar algo que realmente me faz feliz e ser feliz do que ganhar o tal dinheiro, ser “bem visto” pela sociedade, e morrer por dentro aos poucos. Revisto-me da convicção e da filosofia de vida do Imperador e declaro a quem quiser ouvir: vou correr atrás da minha verdadeira felicidade. E vamos ver no que vai dar...



Ele pediu, eu coloquei.
Por Daniel Sathierf